Estudo · Conectividade

Link Dedicado e Datacenter em São Paulo: Quem Está Realmente Bem Conectado

Analisamos rotas BGP, o looking glass do IX.br, medições de latência e 111 datacenters paulistas para responder uma pergunta prática: onde colocar um servidor e de quem comprar a internet dele.

Danilo Jorge 2026-09-25 Telecomunicações
Estudo de conectividade: link dedicado e datacenter em São Paulo

Todo vendedor de link dedicado diz que a operadora dele é "muito bem conectada". Resolvi checar. Em vez de acreditar no folder, fui aos dados públicos que a própria internet publica sobre si mesma: as rotas BGP.

Por que a escolha do provedor importa tanto para um servidor

Quando sua empresa coloca um servidor em datacenter (um ERP, um sistema web, uma VPN que os vendedores usam na rua), cada cliente que acessa esse servidor percorre um caminho. Ele sai da operadora do cliente, passa por uma ou mais redes intermediárias e chega à operadora que você contratou. Quanto menos saltos e mais caminhos alternativos, menor a latência e menor a chance de uma queda longe de você derrubar seu sistema.

O problema é que "boa conexão" não aparece na proposta comercial. Aparece na tabela de rotas.

Como medimos

Tudo foi coletado pela linha de comando, em fontes abertas, no dia 25 de setembro de 2026. Usamos o CAIDA ASRank para medir o tamanho de cada rede, o RIPEstat para vizinhanças e estabilidade, o coletor de rotas do RIPE instalado dentro do IX.br São Paulo como looking glass, sondas do RIPE Atlas para latência e o PeeringDB para saber quem está em qual prédio. No total foram cerca de 245 caminhos BGP, 118 sondas e 111 datacenters.

O que os dados mostraram

1. O IX.br vale mais do que qualquer operadora

Google, Meta, Microsoft e a AWS São Paulo trocam tráfego direto no ponto de troca do NIC.br. Nos seis prefixos da AWS na região sa-east-1 que testamos, todas as redes observadas chegavam à Amazon sem passar por nenhuma operadora. Quem tem porta própria no IX.br alcança esses serviços em um salto, em IPv4 e em IPv6.

2. Para o mundo, um tier-1; para o Brasil, uma operadora nacional

A Lumen (antiga Level 3) apareceu em quase todos os caminhos e entrega Netflix, Akamai, AWS e até o Serpro em um salto. Só que tier-1 global não conversa diretamente com as redes de acesso brasileiras. Quem faz isso são Embratel e Algar: as duas têm sessão BGP direta com TIM, V.tal e Claro, e chegam aos clientes Vivo por meio da própria Vivo. A Algar ainda é a única que alcança o Serpro (gov.br) sem intermediário.

ProvedorASNRank mundialCone de clientesVizinhos BGP
Lumen3356154.887tier-1
Arelion1299242.167tier-1
Telxius12956157.039635
GlobeNet52320292.830792
Algar Telecom16735342.4841.269
Claro/Embratel4230571.0302.036
Vivo10429511.421367

Cone de clientes: quantas redes estão abaixo do provedor na hierarquia de trânsito (CAIDA ASRank). Vizinhos: sessões BGP observadas pelo RIPEstat.

3. O dado que ninguém coloca na proposta: segurança de rotas

RPKI é o mecanismo que impede alguém de "sequestrar" os endereços IP da sua empresa anunciando-os como se fossem dele. Todos os grandes trânsitos globais que avaliamos filtram rotas inválidas. Nenhuma das oito operadoras brasileiras avaliadas faz isso, segundo a lista pública mantida pela Cloudflare. Algar, Vivo, V.tal e TIM também não assinam os próprios prefixos.

Isso não desqualifica ninguém. Mas vira cláusula de contrato.

4. IPv6 ainda depende de fora

Nos caminhos IPv6 observados no IX.br, nenhuma operadora brasileira apareceu. A Hurricane Electric domina e a Lumen leva todo o IPv6 da Netflix. Se o seu servidor atende em IPv6 (e deveria), o tier-1 e o IX.br fazem esse trabalho.

Arquitetura Recomendada

Três Caminhos Independentes, Um Único Prefixo

Seus servidores datacenter em SP Roteador BGP AS próprio · /24 · /48 ROA publicado IX.br São Paulo peering direto Tier-1 global Lumen ou Arelion Trânsito nacional Algar ou Embratel Google, Meta, AWS SP Internet global, IPv6 Usuários BR, governo

A recomendação

Nenhum provedor sozinho ganhou em todos os critérios. Para um servidor que precisa ser alcançado bem por clientes no Brasil e no exterior, a arquitetura que os dados sustentam tem três pernas, anunciando o mesmo bloco de IPs por BGP:

  1. Porta própria no IX.br São Paulo, para conteúdo e nuvem em um salto.
  2. Um tier-1 global (Lumen ou Arelion), para o resto do mundo e para o IPv6.
  3. Um trânsito nacional (Algar ou Embratel), para chegar ao usuário brasileiro sem desvio.

Se um cair, o BGP desvia o tráfego pelos outros automaticamente. Para isso você precisa de AS próprio e de um bloco /24 IPv4 e /48 IPv6, ambos pedidos ao Registro.br.

E o datacenter?

Aqui a diferença é brutal. O Equinix SP4, em Tamboré, tem 595 redes declaradas no PeeringDB, mais de cinco vezes o segundo colocado. É o único prédio do estado onde as três pernas da arquitetura acima estão sob o mesmo teto, resolvidas com um cross-connect.

Top 10 no Estado de São Paulo

Redes Presentes em Cada Datacenter (uma empresa por prédio)

Fonte: PeeringDB, 25/09/2026. Eletronet e Telium são pontos de troca entre operadoras, mais usados para interconexão do que para hospedar servidores.

Ascenty (Osasco), ODATA (Santana de Parnaíba), TIVIT e Scala completam as opções de colocation com ecossistema razoável. A Scala fica na mesma avenida do SP4 e alcança a Equinix por fibra curta. Do quarto lugar em diante, poucos dos provedores recomendados estão no prédio, então o trânsito provavelmente vai exigir um circuito até outro local. Para quem quer ficar fora da capital, o campus da Ascenty em Vinhedo (34 redes) é o mais conectado do interior e funciona bem como site de contingência.

O que perguntar antes de assinar

Dados públicos não mostram preço nem SLA. Leve estas perguntas para cada operadora: o preço por Mbps no commit e no burst (e se a cobrança é por percentil 95); o SLA de disponibilidade e latência com a multa; se entregam tabela completa e IPv6 nativo; quais BGP communities oferecem para prepend e blackhole; se já fazem validação RPKI e até quando; a capacidade de mitigação de DDoS; e se a fibra e o equipamento são fisicamente distintos dos seus outros links.

Whitepaper completo · 15 páginas · PDF

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Latência por operadora, matriz de conexão com as redes de acesso, estabilidade de rotas, RPKI, matriz de decisão, checklist de cotação e a lista completa dos 111 datacenters do estado. Mande uma mensagem e eu envio o PDF pelo WhatsApp.

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Perguntas Frequentes (FAQ)

Minha empresa tem um servidor só. Preciso de tudo isso?

Não necessariamente. Três links com BGP fazem sentido quando o servidor é crítico para a receita. Para um ambiente menor, um datacenter bem conectado com o trânsito já incluído, ou a nuvem na região de São Paulo, costumam resolver com custo bem menor. O estudo ajuda a saber o que perguntar ao datacenter sobre o trânsito que ele revende.

O que é um looking glass?

É uma janela pública para a tabela de rotas de uma rede. Você consulta um endereço IP e vê por quais redes (ASNs) o tráfego passa até chegar lá. Usamos o coletor rrc15 do RIPE, que fica dentro do IX.br São Paulo.

Esses números mudam?

Mudam. Rotas, rankings e adoção de RPKI evoluem todo mês. O estudo é uma foto de 25/09/2026, e todos os comandos para refazer as consultas estão no whitepaper.

Conclusão

Conectividade boa se mede, não se promete. Com uma tarde de consultas a fontes abertas dá para separar a operadora que realmente conversa com o resto da internet daquela que só tem um bom material de vendas. Antes de fechar o próximo contrato de link dedicado, faça essas perguntas. Ou peça para a gente fazer.

Artigo publicado por Danilo Jorge • Netcraw IT Management.

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